Entrevista… A. M. Catarino

“Sociólogo de formação, formador por vocação, fotógrafo por paixão e escritor por natureza. Em miúdo queria ser astronauta, hoje ando frequentemente com a cabeça na lua, a reboque da escrita e da fotografia. Em certa medida pode dizer-se que consegui o que queria…”

A. M. Catarino por fotografia de Simone Santos

A exposição de fotografia patente na galeria da Livraria Ophidia é da autoria de A. M. Catarino.

Inspirados pelo livro de Mircea Eliade |O Sagrado e o Profano | decidimos pegar nessa temática e desafiámos este autor a reflectir e a expressar-se através da imagem fotografada sobre estes conceitos.

Pelo seu sentir e através da sua lente, como é que ele poderia nos mostrar esta dicotomia sensível do imaginário metafísico (e atitude prática no mundo) do ser humano transposto nos dias que correm.

Como é que nos ligamos ao Sagrado, se é que essa ligação ainda existe(?). O que será na realidade a sua contraparte profana?

O resultado foi Simulacro, uma composição de 7 fotografias interligadas e ricas em efeitos visuais e subtilezas estéticas que nos levam por vários planos e distorções de uma realidade que se quer una e genuína. Eis a entrevista que fizemos ao seu Autor:

Ophidia. : A exposição patente na Ophidia vem no seguimento de uma proposta feita por nós, de explorar através da fotografia a temática do Sagrado e do Profano nos dias de hoje. Nem de propósito, agora estamos a passar por uma fase desafiante em que a Humanidade se vê obrigada a rever condutas, atitudes e hábitos. Como achas que esta temática se adequa na realidade que agora vivemos?

A.M.C : As alturas de crise são geralmente uma boa oportunidade para reflectirmos no que se anda a passar em nosso redor. Na minha modesta perspectiva, nos dias de hoje, o sagrado remete para o essencial e o profano para o acessório. É uma interpretação pessoal. Vivemos geralmente afogados em solicitações, muitas vezes contraditórias. Dessa forma pode ser fácil perder a conexão connosco próprios. O acessório ganha terreno ao essencial. A tal ponto que, quando forçadas a encarar-se a si próprias, as pessoas não se reconhecem. Tenho sentido isso na resistência a ficar em casa de quarentena de alguns amigos. Muitos já não estão habituados a estar a sós consigo próprios.

Ophidia : E como foi explorar o tema para a fotografia? Porquê Simulacro, esta palavra particularmente?

A.M.C. : Penso que hoje, mais do que em nenhuma outra fase da história, as pessoas se escondem atrás de imagens. Assim, a fotografia era o método de abordagem prestigiada ao tema. As imagens tornaram-se totens do Eu. Muitos de nós usam uma máscara de si próprios. As redes sociais com os seus filtros permitem ao comum do cidadão reescrever-se e redefinir-se na relação com o mundo. Uma projeção do que se deseja ser mistura-se com a auto imagem. É como um casulo de imagens a envolver a pessoa, ansiosa para se transformar numa borboleta que paire graciosamente acima do mundo, ou pelo menos sobre as redes sociais. Neste sentido, tudo o que nos rodeia é um simulacro.

Ophidia : Sobre a composição fotográfica final, o que nos poderás dizer sobre ela?

A.M.C. : Trabalhei a duplicação. A ambivalência que rodeia todas as nossas acções e decisões. A escolha final consiste em reflexos, jogos de sombras e ilusões de óptica. Para além disso, procurei que as fotografias se ancorassem umas nas outras, como se se tratasse duma narrativa. Há uma comunicação entre todas as imagens, que conduzem o olhar da primeira à última fotografia.

Ophidia : Há muitas crenças em torno do número 7, este como sendo um número sagrado ou mágico. Tiveste isso em conta quando designaste a estrutura da Obra e lhe colocaste 7 fotografias ou não?

A.M.C. : Inicialmente tinha-me proposto a fazer 10 fotografias. Fui trabalhando o conceito sempre com essa meta. Quando dei o projecto por acabado tinha apenas 9. Na altura em que decidi fazer a impressão voltei a olhar para as fotografias com muita atenção. Havia duas que não pareciam acrescentar nada ao conceito, que repetiam uma espécie de arquétipo de outras na selecção. E, como disseste, o 7 é um número com uma mística muito própria. Nem hesitei. Ficaram as 7.

Ophidia : Nada é por acaso. E pensas na reacção que as pessoas poderão ter a ver as tuas fotografias, ou isto é algo que não te passa pela cabeça?

A.M.C. : Não me preocupam muito as interpretações que as pessoas possam fazer. A partir do momento que “ofereço” um trabalho ao público, ele deixa de ser apenas meu, mas também do outro. Gosto de ouvir as opiniões das pessoas. A única coisa que me deixaria realmente frustrado seria a indiferença. Se um visitante fosse ver a exposição e não sentisse nada, então sim, sentiria um amargo de boca.

Ophidia : A tua obra é mais vasta. Queres nos falar um pouco sobre o teu percurso enquanto fotógrafo? E poderá ele dissociar-se da escrita ou não?

A.M.C. : Comecei por ser fotógrafo, o escritor veio a reboque das palavras. Entretanto comecei a “ilustrar” as minhas fotografias com pensamentos e pequenas histórias. Com o tempo comecei a dissociar as duas coisas. Agora, a melhor forma de me apresentar é dizer que sou um contador de histórias. Para contar algumas histórias necessito das palavras, para contar outras das das imagens fixas e outras ainda das imagens em movimento, pois já cheguei a fazer algumas experiências em vídeo. O elemento comum em todas estas formas de expressão sou eu próprio.

Ophidia : Em relação aos livros, pois também és escritor, quantos livros já tens editados?

A.M.C. : São 8, entre edições artesanais limitadas e numeradas, romances e livros de contos e fotografias.

Ophidia : Como é que “venderias” a tua obra literária? Assim tipo, slogan publicitário.

A.M.C. : Uma página de sonho e outra de realidade.

Ophidia : Na realidade, de todas as coisas que fazes, o teu coração está onde? O que é que te move?

A.M.C. : Precisamente na urgência de contar histórias. O que me move é a necessidade de contar histórias.

Ophidia : Tens algum conselho para quem se queira iniciar nas artes da fotografia ou da escrita?

A.M.C. : Recomendo que façam uma pergunta a si próprios: estão prontos para lidar com críticas? É tudo muito bonito quando recebemos elogios, mas o verdadeiro teste é ouvir alguém dizer que não gosta do nosso trabalho. E isso vai acontecer. Inevitavelmente. Nem todos gostamos de verde ou vermelho. Resta saber se temos o estômago preparado para ouvir críticas.

Ophidia : Tens algum hábito ou rotina diária específica que te ajuda a ser mais “produtivo” e que queiras partilhar claro.

A.M.C. :Não tenho nenhum ritual em particular. Mas uma coisa se repete, quando me sento para escrever: há sempre um gato por perto. Os meus gatos são uma espécie de amuletos criativos. (risos)

Ophidia : Uma curiosidade: se tivesses um super-poder, qual seria?

A.M.C. : Seria o de viajar no tempo, sem dúvida. Já escrevi sobre o tema, mas nunca me canso de o explorar literariamente.

Ophidia : E projectos futuros para A. M. Catarino, com o que é que podemos contar nos próximos tempos?

A.M.C. : Para além de continuar a escrever, estou a trabalhar num novo livro de contos e fotografias. Gostaria de fazer uma edição limitada, numerada e assinada. Neste momento ainda estou a estudar as várias opções para o realizar. Se tudo correr bem, sairá ainda este ano, assinalando os 10 anos da publicação do Fragmentário, o meu primeiro livro.

Ophidia : Mais alguma coisa que queiras acrescentar?

A.M.C. : Renovo o convite para visitarem a exposição Simulacro, na Ophidia. Mais importante do que tudo o que se possa dizer acerca da exposição, seria vê-la pelos vossos próprios olhos. Boa visita!

Ophidia : Agradecemos a tua Presença e Partilha.

Obra literária do autor A. M. Catarino

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